Concretismo na Moda
Dominar
cores e formas parece ter sido a grande preocupação de Alfredo
Volpi. Desde o início de sua carreira artística, na década
de 20, este artista se dedicou a descobrir matizes e imagens, imortalizando-as
com suas pinceladas.
Influenciado pela pintura de parede, os primeiros trabalhos de Volpi tinham
um estilo decorativo. Ao passar para o cavalete, a luz e os contrastes das
paisagens circunvizinhas da cidade de São Paulo fizeram com que ele
reelaborasse sua produção, criando combinações
inéditas de cores, amadurecendo na busca de sua expressão artística.
O ato de pintar paisagens encantou-o a tal ponto que ele percebeu a importância
de dominar todos os recursos técnicos para registrar as imagens que
o cercavam. A partir de uma leitura própria, começou a utilizar
o sombreamento e os contornos, a dominar as cores e as formas, aprimorando
assim sua técnica.
| VOCÊ
SABIA
que na casa de Volpi
-- como nas casas de tantas outras famílias de imigrantes italianos
-- a habilidade manual era valorizada? Ele pintava, um de seus irmãos
era entalhador, a irmã costurava. |
No quadro Minha Irmã Costurando, Volpi mostra a jovem em seu
trabalho caseiro, uma obra romântica com características impressionistas,
marcada pela habilidade e a preocupação do artista em produzir
um efeito de luz e sombra no ambiente. Repare na luminosidade que entra pela
janela, banhando os cabelos e a roupa de sua irmã.

Minha Irmã Costurando, óleo sobre
tela, início déc.20, 35,5 x 25,5
Col. Part. Sociedade para catalogação da obra de Alfredo Volpi.
Na
evolução artística de Volpi, do figurativismo ao abstracionismo,
as cores e as formas foram a linguagem mais presente. Das figuras de casas
e fachadas até a abstração desses elementos formais em
seu significado mais apurado, Volpi percorreu um longo caminho.
Desde que começou a observar os contornos dos casarios, até
simplificá-los, transformando-os nas conhecidas bandeiras, mastros,
ogivas, Volpi nos envolve com formas que marcaram definitivamente sua obra.
Nas décadas de 50 e 60, o trabalho desse artista torna-se muito significativo.
Nessa época ele passa a produzir obras concretas, abrindo seu caminho
para o abstracionismo geométrico.
Nesse mesmo período, final da década de 50, com a publicação
de Plano Piloto da Poesia Concreta, no nº 4 da revista-livro Noigrandes,
de autoria de Décio Pignatari, Haroldo de Campos e Augusto de Campos,
é criado o movimento concretista na capital de São Paulo, cuja
repercussão se estende, além da poesia - representada por Pignatari
e os irmãos Campos -, para as artes plásticas, em que se destacam
Waldemar Cordeiro, Hermelindo Fiamminghi, Judith Lauand, Luís Sacilotto,
Maurício Nogueira Lima, Lothar Charoux e Kazmer Fejer, e para o design,
no qual podemos lembrar Alexandre Wollner.
As exposições dos concretistas são realizadas na cidade
de São Paulo, nos anos de 1956 e 1959, e na cidade do Rio de Janeiro,
em 1957.
| VOCÊ
SABIA
que uma das telas
da fase concreta de Volpi foi reproduzida na capa da revista-livro Noigrandes nº 5? Sem dúvida, uma homenagem merecida. |
Um dos teóricos do grupo, no âmbito plástico, Waldemar
Cordeiro escreve: "A precisão da arte não é uma
precisão artesanal, mas de significados. Pode-se construir com rigor
sem contornos rigorosos. Forma não é contorno nem invólucro,
mas relação. (...) A pintura espacial dimensional alcança
seu apogeu em Malevitch e Mondrian. Agora surge uma nova dimensão:
o tempo. Tempo como movimento. A representação transcende o
plano, mas não é perspectiva, é movimento". (in
Enciclopédia Itaú Cultural).
Em 1957, Décio Pignatari escreveu um artigo relacionando Volpi ao Concretismo
no qual fazia o seguinte comentário sobre a obra Xadrês Branco
e Vermelho: "A pura estrutura dinâmica de seu extraordinário
quadro de xadrez branco e vermelho, em que um fenômeno de refração,
por interferência de elementos (que se reconciliam no centro do quadro
retangular: incidência do olho), confere a um mesmo branco duas qualidades
diversas. Esta obra é, exatamente, uma obra concretista, e das mais
estupendas, ainda que não interessa, provavelmente, saber em que 'ismo'
se enquadra sua obra".
AMARAL, Aracy (Org.). Projeto Construtivo Brasileiro na
Arte (1950 - 1962), Rio de Janeiro/São Paulo: Museu de Arte Moderna
do Rio de Janeiro/ Pinacoteca do Estado de São Paulo, 1977.
Você
poderá ver as obras concretas de Volpi, Xadrez branco e vermelho, Hélice e
Geométrico Xadrez, todas de meados da década de 50, na página 24 do livro Alfredo Volpi da Coleção Mestres das Artes no Brasi
Das
Telas para as Ruas
Na
década de 60, a moda se apodera da geometria. Era a época da
chegada do homem à Lua, da guerra do Vietnã, dos Beatles. A
minissaia, criada por Mary Quant, as formas geométricas e as estampas
multicores ditavam moda nos grandes centros urbanos.
Estilistas, como os franceses Courrèges, Pierre Cardin e Paco Rabanne,
e o italiano Emilio Pucci, inovam usando e abusando de linhas e recortes arquiteturais,
do xadrez, das listras, dos tons fortes - mas também do preto e branco
-- em materiais inusitados como o plástico, o couro e os tecidos metalizados,
resultando em um vestuário com toque espacial, futurista.

Legenda:
vestido xadrez vermelho e branco, modelo
desconhecida, década de 60, Carnaby - Street, Londres.
Fonte: Mod mod world
Legenda: vestidos listrados, modelos
desconhecidas, década de 60,
Carnaby Street, - Londres.
Fonte:
Mod mod world
Na
moda da década de 60, as formas e as cores serviam apenas como imagens
figurativas para complementar o suporte, ou seja o vestido, visto que o significado
era bem mais restrito e bem menos complexo. Certamente foi um período
em que a beleza dos contrastes das cores, as linhas geométricas e as
imagens, chamadas "psicodélicas", encantaram e vestiram jovens
do mundo inteiro.
Já na arte concreta de Volpi, as formas e cores se transformam em estruturas
significativas bem mais complexas.