Volpi, o artesão das cores
As primeiras tentativas dos poderes públicos no sentido de trazer imigrantes
para o Estado de São Paulo datam de 1827. Contudo, foi só a partir
de 1870 que a imigração ganha maior impulso.
De início a contratação de imigrantes era uma alternativa
para substituir a mão-de-obra escrava, mas com a promulgação
da Lei Áurea, em 1888, acabou se tornando a única opção.
Com passagens subsidiadas pelo Governo, a oligarquia cafeeira paulista passou
a estimular a vinda de trabalhadores europeus para suas fazendas localizadas
no interior do Estado. A entrada de asiáticos - em especial de japoneses
- iniciou-se em 1908.
Devido ao crescente número de imigrantes surge a necessidade de alojá-los.
Em 1882 começa a funcionar a primeira hospedaria, ainda com estrutura
inadequada, no bairro do Bom Retiro, na capital de São Paulo. Apenas
em 1887 é inaugurada a Hospedaria dos Imigrantes, no bairro do Brás.
Com capacidade para 3.000 pessoas ela que chegou a abrigar 8.000!
Chegando ao porto de Santos, os imigrantes subiam a serra do Mar, viajando em
trens da São Paulo Railway, e desembarcavam em São Paulo, na estação
ferroviária da própria Hospedaria dos Imigrantes. Eram então
alojados em dormitórios coletivos, onde recebiam refeições
e assistência médica. Depois de celebrados os contratos para trabalharem
em lavouras de café, viajavam novamente, partindo do alojamento, ou da
Estação da Luz, com destino a diferentes regiões do Estado
de São Paulo.
Anos mais tarde, os imigrantes acabaram deixando o campo em direção
das cidades, especialmente para a capital paulistana, onde iniciavam atividades
profissionais que exigiam técnicas profissionais anteriormente adquiridas
em seus países de origem, formando a massa operária que impulsionou
a industrialização paulista.
Até hoje quase três milhões de imigrantes de cerca de setenta
nacionalidades diferentes vieram para o Estado de São Paulo. Esse número
representou mais da metade de todos os imigrantes que se dirigiram para o Brasil.
Os imigrantes formaram uma inestimável força de trabalho para
o Brasil, em especial para o Estado de São Paulo. É praticamente
impossível estudar esse período, de constantes transformações
sociais, políticas e econômicas, sem a devida referência
ao processo imigratório." (Revista História ano 2, nº 1, abril/2000 - Secretaria do Estado da Cultura, SP)
A
família de Alfredo Volpi foi mais uma, dentre tantas, a imigrar para
o Brasil. Os pais do artista saíram da cidade de Lucca, Itália,
no ano de 1897 com o propósito de se estabelecer no novo país,
visto como um oásis em meio às inúmeras dificuldades econômicas
enfrentadas pela Itália. Um novo país significava um recomeço
para essas famílias. Fazer fortuna a custa do próprio trabalho,
terra à vontade, além de poder viver num país com clima
ameno, eram os motivos que cativavam os imigrantes.
Você poderá ver uma foto da família de Alfredo Volpi em sua chegada ao Brasil na
página 5 do livro Alfredo Volpi da Coleção Mestres das Artes no Brasil.
Muita esperança para pouca infra-estrutura. Em oposição
da necessidade italiana, havia o interesse dos grandes proprietários
de terra aqui no Brasil, que após a libertação dos escravos,
não conseguiam dar conta da produção. A mão-de-obra
remunerada, mesmo a preço barato, era um novo conceito que eles tiveram
que aprender a lidar.
Ao desembarcarem no Brasil as famílias de italianos que possuíam
alguma estabilidade financeira e formação profissional acabavam
se dirigindo para os grandes centros urbanos, como São Paulo. Isso aconteceu
com a família de Volpi, que se estabeleceu na região do Cambuci
no final do século XIX. Como os espanhóis e portugueses os italianos
também buscavam trabalho, mas oportunidades eram restritas. Podiam escolher
entre ser operários nas indústrias ou viverem como artesãos.
Começam então a surgir marceneiros, pedreiros, pintores, entalhadores,
cocheiros, padeiros, atendendo as necessidades de uma comunidade que crescia
e se desenvolvia.
Nesta obra de Volpi, podemos reparar a presençaa de pessoas participando de atividades
sociais. Figuras que denotam ser imigrantes, aparecem agrupadas pela cidade:
encontros muito comuns na comunidade italiana. Veja as roupas formais e a postura
dos personagens, que demonstram os valores predominantes na época: a atitude
contida dos homens, com semblante sério, usando ternos e chapéus, sem a presença
das mulheres.

óleo sobre tela, sem titulo, de uma coleção particular, pintada em meados da
década de 40.
Sociedade para catalogação da obra de Alfredo Volpi.
Na
página 19 do livro Alfredo Volpi da Coleção Mestres das Artes, você poderá
ver a obra Reunião à mesa pintada na década de 40 que também mostra uma
atividade social típica dos imigrantes italianos.
Alfredo Volpi começou a trabalhar como marceneiro entalhador, aprendendo
a usar ferramentas próprias para madeira. Em suas mãos, formão,
plaina, lixas transformaram-se em objetos de uso pessoal.
Mais do que aprender a manejar ferramentas ele aprendeu a observar os cuidadosos
entalhes criados pelos artesãos. Na época, essa era uma profissão
muito valorizada na cidade. Marceneiros e entalhadores criavam verdadeiras obras
de arte em prédios públicos e principalmente igrejas que iam sendo
construídas.
Essa habilidade foi fundamental quando Volpi se tornou artista plástico,
uma vez que ele montava as próprias telas prendendo o tecido nas molduras
de madeira feitas por ele próprio.
Volpi "de manhã e à tarde, trabalha como um operário.
Prepara caprichosamente cada tela, de entretela de linho puro ou linho cru,
com gelatina de porco e gesso. O chassi de cada uma merece cuidados especiais,
'para não entortar'. A moldura, cortada com uma serrinha manual, fabricada
por ele mesmo, é quase imperceptível". KAWALL,
Luis E. M. Artes Reportagem, São Paulo, SP, Centro de Artes Novo
Mundo, 1972.
Depois de exercer a profissão de marceneiro, o jovem Alfredo Volpi foi
trabalhar como encadernador em uma gráfica. Com o primeiro salário
ele comprou uma caixa de aquarelas. Durante o horário de almoço,
ele ficava misturando tintas, descobrindo novas tonalidades de cores. Mais uma
vez, podemos constatar que a sensibilidade colorista desse artista parece ter
se desenvolvido de sua curiosidade, de sua própria busca, quando ainda
era adolescente.
Vocé
poderá observar as cores de algumas obras de Volpi na página 26 do livro Alfredo
Volpi da Coleção Mestres das Artes.
Aos
quinze anos de idade, Volpi abraça uma nova profissão: a de pintor
de paredes, que o aproxima ainda mais das tintas e das cores. Na verdade ele
nunca foi um pintor de parede comum. Volpi já podia ser considerado um
artista pois pintava frisos e florões decorativos nas mansões
de aristocratas e imigrantes abastados da Avenida Paulista,.
Alfredo Volpi dá o seu depoimento:
"Naquele tempo os ricos gostavam de fazer cada sala diferente e chamavam
a gente para fazer uma sala mourisca, outra florentina. Era assim que se usava,
naquela época.
Se o dono da casa era turco, utilizava a sala de jantar mourisca, se era italiano,
preferia a florentina. Eu fazia uma sala daquelas florentinas e eles me pagavam
um conto de réis. Eu passava quatro meses pintando por minha conta. Vivia
vários meses com um conto de réis". (Críticos
e artistas, Alberto Beuttenmuller, Arte aplicada, FAAP,1983).
Foi naquela época, já com dezoito anos de idade, que Volpi pintou
o que considerou sua primeira obra: uma paisagem sobre a tampa de uma caixa
de charutos, usando tinta a óleo. Mas foi só aos 29 anos de idade,
ao participar de uma mostra de pintura no Palácio das Indústrias,
em São Paulo, ele iniciaria verdadeiramente sua carreira artística.Veja
uma de suas primeiras obras na página 8 do livro Alfredo Volpi da Coleção
Mestres das Artes no Brasil.
Alfredo Volpi, filho de imigrantes italianos, foi um auto-didata.
"O operário Volpi acreditou em si mesmo. E o artista Volpi venceu".
(Alfredo Volpi, Mestres das artes no Brasil, Editora Moderna).
O artesão Volpi sempre conviveu com o artista Volpi, isto pode ser comprovado
nos tons que coloriam seu universo. A cada obra de arte que produzia, o marceneiro,
entalhador, encadernador e pintor de parede se manifestavam, deixando marcas
a cada pincelada.
Desde a montagem da tela à mistura de cores com sua primeira aquarela,
passando pelos motivos decorativos dos casarios e das fachadas, a sensível
alma do artista superou as dificuldades enfrentadas pelos imigrantes, que vinham
em busca de fortuna na nova terra.
Alfredo Volpi, o artesão das cores, trabalhou muito para ser um dos grandes
mestres da pintura no Brasil. |