Alfredo Volpi
Alfredo Volpi
Mestres das Artes no Brasil - Alfredo Volpi
Aqui você vai encontrar conteúdo e atividades para trabalhar em sala de aula utilizando os livros das Coleções Mestres das Artes, Mestres das Artes no Brasil e Mestres da Música no Brasil.
Livro


Volpi, o artesão das cores
As primeiras tentativas dos poderes públicos no sentido de trazer imigrantes para o Estado de São Paulo datam de 1827. Contudo, foi só a partir de 1870 que a imigração ganha maior impulso.

De início a contratação de imigrantes era uma alternativa para substituir a mão-de-obra escrava, mas com a promulgação da Lei Áurea, em 1888, acabou se tornando a única opção. Com passagens subsidiadas pelo Governo, a oligarquia cafeeira paulista passou a estimular a vinda de trabalhadores europeus para suas fazendas localizadas no interior do Estado. A entrada de asiáticos - em especial de japoneses - iniciou-se em 1908.

Devido ao crescente número de imigrantes surge a necessidade de alojá-los. Em 1882 começa a funcionar a primeira hospedaria, ainda com estrutura inadequada, no bairro do Bom Retiro, na capital de São Paulo. Apenas em 1887 é inaugurada a Hospedaria dos Imigrantes, no bairro do Brás. Com capacidade para 3.000 pessoas ela que chegou a abrigar 8.000!

Chegando ao porto de Santos, os imigrantes subiam a serra do Mar, viajando em trens da São Paulo Railway, e desembarcavam em São Paulo, na estação ferroviária da própria Hospedaria dos Imigrantes. Eram então alojados em dormitórios coletivos, onde recebiam refeições e assistência médica. Depois de celebrados os contratos para trabalharem em lavouras de café, viajavam novamente, partindo do alojamento, ou da Estação da Luz, com destino a diferentes regiões do Estado de São Paulo.

Anos mais tarde, os imigrantes acabaram deixando o campo em direção das cidades, especialmente para a capital paulistana, onde iniciavam atividades profissionais que exigiam técnicas profissionais anteriormente adquiridas em seus países de origem, formando a massa operária que impulsionou a industrialização paulista.

Até hoje quase três milhões de imigrantes de cerca de setenta nacionalidades diferentes vieram para o Estado de São Paulo. Esse número representou mais da metade de todos os imigrantes que se dirigiram para o Brasil.

Os imigrantes formaram uma inestimável força de trabalho para o Brasil, em especial para o Estado de São Paulo. É praticamente impossível estudar esse período, de constantes transformações sociais, políticas e econômicas, sem a devida referência ao processo imigratório." (Revista História ano 2, nº 1, abril/2000 - Secretaria do Estado da Cultura, SP)

A família de Alfredo Volpi foi mais uma, dentre tantas, a imigrar para o Brasil. Os pais do artista saíram da cidade de Lucca, Itália, no ano de 1897 com o propósito de se estabelecer no novo país, visto como um oásis em meio às inúmeras dificuldades econômicas enfrentadas pela Itália. Um novo país significava um recomeço para essas famílias. Fazer fortuna a custa do próprio trabalho, terra à vontade, além de poder viver num país com clima ameno, eram os motivos que cativavam os imigrantes.

Você poderá ver uma foto da família de Alfredo Volpi em sua chegada ao Brasil na página 5 do livro Alfredo Volpi da Coleção Mestres das Artes no Brasil.

Muita esperança para pouca infra-estrutura. Em oposição da necessidade italiana, havia o interesse dos grandes proprietários de terra aqui no Brasil, que após a libertação dos escravos, não conseguiam dar conta da produção. A mão-de-obra remunerada, mesmo a preço barato, era um novo conceito que eles tiveram que aprender a lidar.

Ao desembarcarem no Brasil as famílias de italianos que possuíam alguma estabilidade financeira e formação profissional acabavam se dirigindo para os grandes centros urbanos, como São Paulo. Isso aconteceu com a família de Volpi, que se estabeleceu na região do Cambuci no final do século XIX. Como os espanhóis e portugueses os italianos também buscavam trabalho, mas oportunidades eram restritas. Podiam escolher entre ser operários nas indústrias ou viverem como artesãos. Começam então a surgir marceneiros, pedreiros, pintores, entalhadores, cocheiros, padeiros, atendendo as necessidades de uma comunidade que crescia e se desenvolvia.

Nesta obra de Volpi, podemos reparar a presençaa de pessoas participando de atividades sociais. Figuras que denotam ser imigrantes, aparecem agrupadas pela cidade: encontros muito comuns na comunidade italiana. Veja as roupas formais e a postura dos personagens, que demonstram os valores predominantes na época: a atitude contida dos homens, com semblante sério, usando ternos e chapéus, sem a presença das mulheres.

Imagem
óleo sobre tela, sem titulo, de uma coleção particular, pintada em meados da década de 40.
Sociedade para catalogação da obra de Alfredo Volpi.

Na página 19 do livro Alfredo Volpi da Coleção Mestres das Artes, você poderá ver a obra Reunião à mesa pintada na década de 40 que também mostra uma atividade social típica dos imigrantes italianos.

Alfredo Volpi começou a trabalhar como marceneiro entalhador, aprendendo a usar ferramentas próprias para madeira. Em suas mãos, formão, plaina, lixas transformaram-se em objetos de uso pessoal.

Mais do que aprender a manejar ferramentas ele aprendeu a observar os cuidadosos entalhes criados pelos artesãos. Na época, essa era uma profissão muito valorizada na cidade. Marceneiros e entalhadores criavam verdadeiras obras de arte em prédios públicos e principalmente igrejas que iam sendo construídas.

Essa habilidade foi fundamental quando Volpi se tornou artista plástico, uma vez que ele montava as próprias telas prendendo o tecido nas molduras de madeira feitas por ele próprio.

Volpi "de manhã e à tarde, trabalha como um operário. Prepara caprichosamente cada tela, de entretela de linho puro ou linho cru, com gelatina de porco e gesso. O chassi de cada uma merece cuidados especiais, 'para não entortar'. A moldura, cortada com uma serrinha manual, fabricada por ele mesmo, é quase imperceptível". KAWALL, Luis E. M. Artes Reportagem, São Paulo, SP, Centro de Artes Novo Mundo, 1972.

Depois de exercer a profissão de marceneiro, o jovem Alfredo Volpi foi trabalhar como encadernador em uma gráfica. Com o primeiro salário ele comprou uma caixa de aquarelas. Durante o horário de almoço, ele ficava misturando tintas, descobrindo novas tonalidades de cores. Mais uma vez, podemos constatar que a sensibilidade colorista desse artista parece ter se desenvolvido de sua curiosidade, de sua própria busca, quando ainda era adolescente.

Vocé poderá observar as cores de algumas obras de Volpi na página 26 do livro Alfredo Volpi da Coleção Mestres das Artes.

Aos quinze anos de idade, Volpi abraça uma nova profissão: a de pintor de paredes, que o aproxima ainda mais das tintas e das cores. Na verdade ele nunca foi um pintor de parede comum. Volpi já podia ser considerado um artista pois pintava frisos e florões decorativos nas mansões de aristocratas e imigrantes abastados da Avenida Paulista,.

Alfredo Volpi dá o seu depoimento:
"Naquele tempo os ricos gostavam de fazer cada sala diferente e chamavam a gente para fazer uma sala mourisca, outra florentina. Era assim que se usava, naquela época.

Se o dono da casa era turco, utilizava a sala de jantar mourisca, se era italiano, preferia a florentina. Eu fazia uma sala daquelas florentinas e eles me pagavam um conto de réis. Eu passava quatro meses pintando por minha conta. Vivia vários meses com um conto de réis". (Críticos e artistas, Alberto Beuttenmuller, Arte aplicada, FAAP,1983).

Foi naquela época, já com dezoito anos de idade, que Volpi pintou o que considerou sua primeira obra: uma paisagem sobre a tampa de uma caixa de charutos, usando tinta a óleo. Mas foi só aos 29 anos de idade, ao participar de uma mostra de pintura no Palácio das Indústrias, em São Paulo, ele iniciaria verdadeiramente sua carreira artística.Veja uma de suas primeiras obras na página 8 do livro Alfredo Volpi da Coleção Mestres das Artes no Brasil.

Alfredo Volpi, filho de imigrantes italianos, foi um auto-didata. "O operário Volpi acreditou em si mesmo. E o artista Volpi venceu". (Alfredo Volpi, Mestres das artes no Brasil, Editora Moderna).

O artesão Volpi sempre conviveu com o artista Volpi, isto pode ser comprovado nos tons que coloriam seu universo. A cada obra de arte que produzia, o marceneiro, entalhador, encadernador e pintor de parede se manifestavam, deixando marcas a cada pincelada.

Desde a montagem da tela à mistura de cores com sua primeira aquarela, passando pelos motivos decorativos dos casarios e das fachadas, a sensível alma do artista superou as dificuldades enfrentadas pelos imigrantes, que vinham em busca de fortuna na nova terra.

Alfredo Volpi, o artesão das cores, trabalhou muito para ser um dos grandes mestres da pintura no Brasil.

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