Introduzindo
aos Códigos
A
língua do "P", brincadeira tão apreciada por
crianças de várias gerações, inclusive pelo
próprio Gil, é um exemplo simples de uma atividade levada
a sério por muitos adultos: a arte de criar códigos. Na
verdade, é exagerado denominar a língua do "P"
como código, ou mesmo como língua.
Para um entendimento aprofundado da questão, sugiro três
autores clássicos: Abraham A. Moles (1920-1992), sobre a teoria
da informação; Marshall MacLuhan (1911-1980), sobre comunicação
e Charles S. Pierce (1926-1999), sobre semiótica. Aqui, convém,
simplificadamente, esclarecer alguns conceitos:
· A Comunicação é o ato de ou efeito de
emitir, transmitir e receber mensagens por meio de métodos e/ou
processos convencionados, quer através da linguagem falada ou
escrita, quer de outros sinais, signos ou símbolos, quer de aparelhamento
técnico especializado, sonoro e/ou visual. (Novo
Dicionário Aurélio Século XXI. - versão
digital 3.0, Editora Nova Fronteira).
· O Transmissor é o elemento implícito no sistema
acima, que produz e emite a mensagem.
· A Mensagem é a estrutura organizada de sinais que serve
de suporte à comunicação; o enunciado considerado
apenas ao nível do plano de expressão, com exclusão
dos conteúdos investidos. (Ibid).
· O Receptor é o elemento que recebe e decodifica a mensagem.
· O Signo é a unidade mínima de sentido - atribuído
por convenção - dentro de um código. Por ser convencional,
seu sentido é arbitrário e específico. Não
se deve confundi-lo com o Símbolo que, apesar da ocorrência
universal, permite uma interpretação aberta, múltipla
em sentidos.
· O Código é entendido geralmente, como o conjunto
de regras que possibilita a construção e o resgate (compreensão)
de informações. Nesta construção, são
empregados Signos.
Exemplos:
- o código de trânsito, baseado em uma série de
placas de sinalização cujas convenções (figuras,
cores e formatos) devem ser compreendidas e seguidas por todos os condutores;
- o código de barras, utilizado para leitura de informações
em formato digital. A seqüência de barras está associada
à valores numéricos, os quais, por sua vez, referem-se
a atributos pré-determinados (natureza, preço e classe
do produto);
- o código Morse, que emprega sinais de pulso para traduzir
caracteres alfabéticos que são:
· A Linguagem é considerada um código e por este
motivo nos referimos a ela nas mais diversas acepções,
tais como linguagem dos sinais, linguagem de computador, linguagem chula
e outros. Entretanto, ela não é um código qualquer,
mas sim um código compartilhado. A comunicação
entre o transmissor e o receptor só pode ser compreendida quando
realizada por meio de uma linguagem dominada por ambos.
· A Língua constitui-se num aspecto particular da linguagem,
inerente a uma comunidade particular. Por exemplo, a comunidade lusófona
é aquela que se comunica por meio da Língua Portuguesa,
ou do idioma Português.
Para
iniciar a compreensão prática sobre como funciona um sistema
de códigos, podemos recorrer a uma pequena série de atividades
lúdicas que podem despertar o interesse para o tema. É
fundamental observar a estratégia de oferecer primeiro um exemplo
e, na seqüência, sugerir que os alunos criem seus próprios
"enigmas".
O
Brasil sobre Trilhos
As viagens da infância de
Gilberto Gil, assim como a de muitos brasileiros, estão permeadas
por "lembranças ferroviárias", idas de trem
para o interior e o litoral.
Na época, o trem ainda se afigurava como um meio de transporte
barato, seguro e razoavelmente rápido. Mal sabia ele que a condução
sacolejante e reveladora da paisagem de que desfrutava já era
de longa data uma preterida alternativa de transporte público,
em relação aos outros meios de transporte, principalmente
os rodoviários.
A história das ferrovias no Brasil é relativamente antiga,
nos primórdios, houve quem visualizasse a probabilidade do Brasil
vir a ser um "país sobre trilhos" devido à extensão
de suas planícies, e á despeito da variedade de paisagens.
Um destes visionários foi Irineu Evangelista de Sousa, 1813-1889,
mais conhecido como Barão de Mauá, responsável
pela construção do primeiro trecho ferroviário
inaugurado no Brasil - ligando a Baía de Guanabara até
os arredores de Petrópolis - e a introdução da
primeira locomotiva a vapor, a "Baroneza".
Esse investimento inicial contou com apoio decisivo do então
imperador D. Pedro II que, além de ser um entusiasta de novas
descobertas e invenções, deve ter imaginado um meio melhor
que o lombo de mulas para embarcar ou desembarcar mercadorias no porto.
Graças ao incentivo do imperador, traduzido em benefício
fiscais, de 1854 - ano de inauguração da Estrada de Ferro
Mauá - até 1884, uma série de novas linhas férreas
seria assentada: Recife ao São Francisco, D. Pedro II (transformada,
anos mais tarde, na Estrada de Ferro Central do Brasil); Bahia ao São
Francisco, Santos a Jundiaí, Companhia Paulista, Companhia Mogiana,
Companhia Sorocabana, Central da Bahia, Santo Amaro; Paranaguá
a Curitiba, Porto Alegre a Novo Hamburgo, Dona Tereza Cristina e Corcovado.
O problema foi que no afã de construir ferrovias de norte a sul
do país a integração entre as mesmas não
foi priorizada, nem mesmo planejada. Assim, o que havia no Brasil no
final do séc. XIX era uma série de trechos isolados que
não chegavam a constituir um sistema.
A falta de uma medida padrão nas bitolas (nome do espaço
entre os dois trilhos) revelou-se outro problema importante, pois, mesmo
que se encontrassem, linhas de bitolas diferentes (cada qual com trens
fabricados para a sua própria medida) não poderiam ser
integradas.
É quase desnecessário dizer que este "mau começo"
teria conseqüências drásticas para o futuro das ferrovias
no país, contribuindo para o seu declínio.
Não obstante tais dificuldades, a expansão das linhas
ferroviárias no Brasil cresceu a olhos vistos até o começo
do séc. XX, como se pode observar pelos números:
· 1884
-> 6.116 km de linhas operacionais
· 1888
-> 9.200 km de linhas operacionais
· 1922
-> 29.000 km de linhas operacionais
Uma
boa parte desta expansão pode ser creditada às necessidades
de exportação do café paulista, o que justifica
a presença de um grande número de companhias e linhas
interligando o interior do estado de São Paulo ao litoral e ao Rio de Janeiro.
A fase seguinte da história das ferrovias no Brasil teria a contribuição
decisiva do governo nacionalista de Getúlio Vargas, responsável
pela estatização de grande parte do sistema e o início
da substituição nos trens, do vapor pela energia elétrica.
Neste período, não mais o café paulista, mas o aço
mineiro deixou sua marca na rede ferroviária, com absorção
da estrada de Ferro Vitória a Minas pela Companhia Siderúrgica
Vale do Rio Doce.
Embora iniciado por Vargas, o processo de unificação administrativa
(assim como a substituição total dos trens a vapor) das
ferrovias brasileiras só seria concluído na década
de 1950. A Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA) foi criada em
março de 1957.
Quando tudo parecia preste a "entrar nos trilhos", a incipiente
indústria automobilística, que existia no Brasil desde
os anos 1920, recebeu o apoio político decisivo do governo Juscelino
Kubitscheck. Para o então presidente, a premissa de avançar
cinqüenta anos em cinco passava pela necessidade de incrementar
a indústria automobilística, atraindo montadoras americanas
e européias de caminhões e automóveis de passeio
para o país.
Como parte deste plano desenvolvimentista, a capital do Brasil foi levada
para o Planalto Central em 1967, obrigando o salto qualitativo e quantitativo
observado no sistema de rodovias.
A partir de então, a maior parte dos investimentos na área
de transportes seria direcionada para a fabricação de
automóveis e à expansão do sistema rodoviário.
Esta opção, diga-se de passagem, atendeu, e ainda atende,
muito mais ao interesse do capital internacional, já que a indústria
brasileira nunca atingiu patamares expressivos de competitividade com
os produtos estrangeiros montados aqui (mediante o pagamento de royalties)
ou importados diretamente.
Aos poucos, as mudanças começaram a atingir o sistema
ferroviário brasileiro, e a sucessão de eventos pode ser
resumidamente descrita:
1971 - Unificação das ferrovias paulistas na estatal Ferrovia
Paulista S. A. (FEPASA);
1984 - Afastamento da RFFSA do transporte urbano, substituída
pela CBTU;
1990 - Instituição do PND, Programa Nacional de
Desestatização;
1999 - Extinção da RFFSA.
A
privatização acelerada das ferrovias nacionais, promovida
pelo PND, praticamente congelou a expansão do sistema ferroviário
e, até o momento, não parece haver nenhum interesse público
ou privado pela reativação do setor. |