As ONGs e a Ecologia
No
último quartel do séc. XX, por conta de uma revolução
de costumes conhecida como "Contracultura", muitos valores vigentes
na civilização ocidental foram, pela primeira vez, abertos
e amplamente questionados.
Mesmo que este movimento não tenha alcançado seus objetivos,
constatamos que algumas de suas atitudes inspiradoras ainda sobrevivem
no presente.
Como reflexo desta época de conflito de idéias, às
vezes bastante contraditórias, e busca de alternativas, algumas
bastante ingênuas, ao sistema capitalista-competitivo-desumano,
ainda estão em voga atualmente preocupações com o
resgate da cidadania, o pacifismo e a ecologia.
A preocupação ecológica talvez seja, entre todas
as outras aspirações legítimas por uma sociedade
melhor, aquela que obteve uma maior adesão por parte dos detentores
do poder político e econômico, o que talvez se justifique
pelos efeitos já sentidos no meio ambiente, como a escassez de
recursos naturais e a perda de qualidade de vida nos grandes centros urbanos
- sem falarmos no famigerado "efeito estufa".
Um outro diferencial importante pode ser estabelecido entre os dias de
hoje e os nostálgicos anos 60-70: a organização dos
movimentos sociais, antes realizada de forma espontânea e romântica,
passou a obedecer a princípios legais e institucionais na forma
de ONGs (Organizações Não-Governamentais).
Mas o que é que caracteriza uma ONG, e qual a relação
destas com o movimento ecológico? Uma Organização
Não-Governamental é por definição uma entidade
jurídica, portanto, registrada oficialmente perante o estado e
mantida por indivíduos que se dispõe a trabalhar por uma
causa considerada de grande importância para a humanidade.
As questões ambientais e sociais são os motivos mais comuns
para a fundação de uma ONG. A independência em relação
ao governo/estado não significa necessariamente uma ruptura com
as políticas públicas, mas tão somente o reconhecimento
da insuficiência destas em relação à causa
defendida e à necessidade de uma autonomia que inexiste nas repartições
governamentais.
Não obstante, além dos princípios usualmente observados
pelas ONGs, tais como enfoque humanista, voluntariado e visão sistêmica
(pense globalmente, aja localmente), eventualmente ocorrem conflitos entre
elas e os setores oficiais. A atuação do Greenpeace é um exemplo emblemático desses choques.
Além da disposição para o combate (que não
precisa ser entendido assim, tão literalmente), os integrantes
de uma ONG devem ter um foco claro da área em que pretendem atuar,
sem a pretensão de resolver, a um só tempo, todos os problemas
do mundo. O processo de regularização de uma ONG é
trabalhoso e o ideal é que ela consiga o chamado "certificado
de utilidade pública", documento que serve como um atestado
de idoneidade, além de aumentar a possibilidade de que ela consiga
subsídios do estado ou parcerias importantes, afinal, embora não
almejem lucro, dentro do sistema capitalista, até as ONGs precisam
manter-se.
Resumindo, talvez o mais importante progresso atingido pela sociedade
civil nas últimas décadas tenha sido a conscientização
dos indivíduos a respeito de seus direitos e das formas de reivindicá-los.
Neste momento da história, a constituição de ONGs,
cujo sustentáculo vem a ser a união de várias pessoas
em torno do mesmo ideal,
parece ser uma das maneiras mais eficientes e eficazes de alcançar
tais objetivos.
Órgãos portáteis: o Acordeão
Apesar de exibir-se usualmente cantando e empunhando
um violão, o cantor e compositor Gilberto Gil iniciou sua formação
musical por meio de um instrumento que a música pop atual parece
ora relegar ao esquecimento, ora resgatar inesperadamente. Estamos falando
do acordeão.
Ás vezes confundido com instrumentos semelhantes, tais como a
sanfona (harmônica) e o bandoneon, este "órgão
portátil" tem uma história longa que começa,
provavelmente, na China Imperial. Esta primeira encarnação
do instrumento era chamada cheng, ou tcheng, e há
uma certa escassez de informações sobre o seu aspecto
e suas técnicas de construção e execução
musical.
Provavelmente, um tcheng levado para a Europa (através
da Rússia) incentivou o desenvolvimento de versões aperfeiçoadas
do instrumento, que logo originariam patentes:
· handeoline -> Alemanha, 1821
· concertina -> Inglaterra, 1829
· accordeon -> Áustria, 1829
· harmoniflute -> França, 1855
· fisarmonica -> Itália, 1864
Da
pequena lista acima, destaca-se o accordeon, austríaco,
que inclusive serviu como base para que os italianos desenvolvessem
o acordeão moderno, a partir da fisarmonica. Por sua vez,
a concertina britânica pode ser considerada ancestral direta
da sanfona e do bandoneon. O que distingue um instrumento do
outro é basicamente a adoção do teclado cromático,
igual ao do piano, pelo acordeão, enquanto na sanfona optou-se
por manter o sistema original de botões.
Além dos exemplos mencionados, encontram-se ainda denominações
como organeto, semitonata, diatônica e cromática,
referindo-se a artefatos que, mesmo caindo em desuso, inovaram com diversas
soluções incorporadas aos acordeões modernos.
O princípio de funcionamento do acordeão é muito
parecido como da antiqüíssima gaita de foles (bagpipe),
instrumento nacional da Escócia, mas que aparece praticamente
em todas as regiões do Velho Mundo. Seu sistema de produção
de som é baseado num saco de ar comprimido manualmente (no caso,
"braçalmente", uma vez que ele é mantido sob
um dos braços) de forma que o ar seja expelido com força
por meio de diversos tubos produtores de som.
A inovação trazida por mecanismos do tipo do acordeão
é a presença de lâminas (lingüetas), em tudo
semelhantes às da gaita de boca que, pela riqueza de sons harmônicos
que produzem, ampliam a gama de timbres de que o instrumento dispõe.
Note-se também a evolução do saco de ar, que se
transformou num fole de acionamento horizontal de grande resistência.
Apesar de amplamente disseminado pela Europa no séc. XIX, o acordeão
só viria a se tornar um instrumento comum no Brasil no séc.
XX, com a intensificação do movimento migratório
da colônia italiana. Por conta dessa influência, chegou
a ser fundada uma fábrica de acordeões no país,
que (não obstante tenha vendido milhares de instrumentos) hoje
só fabrica móveis.
Resultado de um empobrecimento cultural, ou reflexo das irrevogáveis
"leis de mercado", o fato é que o declínio do
acordeão no Brasil - que não atingiu de todo a esfera
da música regional nordestina, gaúcha e sertaneja - não
será um fato irreversível se for realizado um trabalho
de apresentação deste instrumento às novas gerações. |