Rio de Janeiro: Cidade infecciosa
Para
quem vive no Brasil do ano 2001, talvez seja um pouco difícil imaginar-se
andando pelas ruas da capital federal - o Rio de Janeiro, na virada do século
XIX para o XX.
O hipotético visitante do futuro, sentir-se-ia, talvez, tocado pela nostalgia
dos tempos idos, ao presenciar carroças transportando o leite e sentindo
o cheiro do pão assado nos fornos a lenha. Os de olfato mais sensível,
no entanto, poderiam sentir-se agredidos pelo fedor de esgotos jogados na rua
(conteúdo de penicos, escarradeiras e coisas assim) e estrume de cavalos
forrando a rua.
Por outro lado, a visão das ruas imundas, coalhadas de ratazanas, talvez
fosse compensada pela visão de um céu urbano estrelado, sem a
poluição e o ofuscamento de tantas lâmpadas. De fato, por
muitos anos, o Rio de Janeiro foi considerado algo como as sereias de Ulisses:
uma miragem de beleza, mas cujo contato poderia ser letal - a febre amarela,
a peste bubônica e a varíola grassavam impunemente.
Assim como a moral rígida arraigada na sociedade fez sofrer muitos dos
que ousavam desafiá-la - caso de nossa maestrina - a resistência
cultural ao saneamento obrigatório provocaria, anos mais tarde, uma revolução,
no sentido literal da palavra: a Revolução da Vacina. Nessa ocasião,
o povo enlouquecido enfrentou a polícia e incendiou bondes, entrando
numa batalha campal contra aquilo que considerava "uma imposição
autoritária" do governo nas campanhas de Osvaldo Cruz.
Mas o Rio de Janeiro de Chiquinha, síntese de um Brasil que aspirava
à modernidade (identificada com o modus vivendi europeu) custaria
a acatar as normas mais simples da higiene pessoal e coletiva.
| VOCÊ
SABIA
que no tempo em que
Chiquinha engravidou pela primeira vez, era muito comum a morte da parturiente
ou do bebê devido à falta de cuidados médicos que
ocasionavam complicações (febre puerperal, por exemplo)
pois o parto era realizado em casa por parteiras, e não em hospital,
por médicos. Também era corriqueira a perda do bebê,
logo após, por não haver vacinas nem antibióticos. |
A Tecnologia Musical na virada do
século
Na
página 28 e na quarta-capa do livro Chiquinha Gonzaga (série Mestres da Música no Brasil),
há a fotografia de um gramofone, o tio-avô do CD player.
É estranho para muitos de nós, que crescemos (e mais ainda para
os que já nasceram!) sob a égide da música digitalizada,
entender como nossos avós e bisavós podiam escutar música
em aparelhos tão precários.
Termos que hoje são corriqueiros, como "estereofônico",
"transmissão", e "caixa cústica" eram inconcebíveis
para os que se admiravam com o simples fato de ser possível registrar
a voz (ou algo parecido) de um cantor num disco de cera. Sim, é isso
mesmo: os primeiros discos eram de cera e substituiam os volumosos e pouco
práticos cilindros do mesmo material. A eles sucederam-se os discos
de massa e de metal que giravam a rotações: o vinil apareceria
décadas mais tarde, e só alcançaria êxito comercial
após a II Guerra.
O mais interessante é que a própria estética (ou "gosto")
musical nos primórdios da indústria
fonográfica e da radiodifusão foi moldada de acordo com as possibilidades
que a tecnologia oferecia. Por isso, os "de antigamente" (em breve
seremos nós, não nos esqueçamos) gostavam tanto de vozeirões
fortes e estridentes acompanhados por arranjos orquestrais: a falta de sensibilidade
dos microfones e gravadores não permitia o registro aceitável
de sons muito débeis
Na época em que Chiquinha Gonzaga compunha, entretanto, a tecnologia
musical era ainda mais restrita: o êxito comercial de um compositor
só estaria assegurado se suas músicas tivessem o privilégio
de agradar os ouvintes a ponto de serem lembradas e cantaroladas (ou, ainda,
assobiadas) na rua.
No máximo, havia o registro escrito das músicas - as partituras
- editadas para os que soubessem ler música (e, depois, gravadas para
os que pudessem comprar um gramofone), por empresas pioneiras, das quais a
mais famosa é sem dúvida a Casa Edison. Não obstante
a maestrina ter vendido muitas de suas músicas na versão impressa,
de porta em porta, sabemos que antes do advento das sociedades de defesa do
direito autoral, a popularidade do artista não implicava, necessariamente,
a melhora de seu padrão de vida. |